Foto-incisão - "How to"

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Foto-incisão - "How to"

MensagemEscrita por Bruno Albuquerque » 25 Set 2008, 20:04

Aproveitando uma viagem de comboio até Lisboa, vou fazer o que prometi há uns tempos. Como é que faço fotogravuras. Para já não vou estar com explicações químicas nem nhequices do género, isso fica para a versão final.

Explicando o método de forma geral, a incisão química consiste na gravação de uma determinada forma numa placa metálica através da oxidação do metal presente na placa. Para isso vamos necessitar da placa metálica, de um agente oxidante e de um método de proteger da oxidação certas áreas da placa (os nossos desenhos). Um dos métodos usados para proteger a placa metálica da oxidação é através do uso de um verniz fotossensível, dando origem ao termo foto incisão (photo-etching).

Como devem ter reparado, as fotogravuras do Mosquito J.30 apresentam relevo, isto é feito protegendo ambas as superfícies da placa de metálica em zonas diferentes. Como teoricamente a oxidação é feita de forma uniforme em ambos os lados, esta vai ser simultânea em ambas as superfícies da placa, diminuindo para metade o tempo de oxidação, e oxidando as superfícies de forma não simétrica (se o nosso “desenho” assim o determinar).

O primeiro passo será a desenho da nossa placa. Eu uso o CorelDraw®, mas pode-se usar qualquer programa de desenho vectorial ou CAD. É ao gosto do freguês. Depois de desenhados os esquemas para ambas as superfícies, imprime-se a preto para em folhas de acetato. Chegamos a um dos pontos críticos do processo (sim, ainda agora começámos e já há “pontos críticos”… pois isto não é para meninos :D) a nossa imagem convém ser completamente opaca. Eu, ao mesmo utilizando uma impressora jacto de tinta de qualidade acima da média (HP Deskjet 6800) e a utilizar o máximo de tinta possível imprimo os esquemas em duplicado e sobreponho-os. Mesmo assim não fico plenamente satisfeito com o resultado não é perfeitamente opaco. Penso que o ideal será usar uma impressora a laser e de elevada resolução.

Após termos os nossos esquemas impressos, temos que transferir a imagem para a placa metálica que, como sabem, era de latão. Para tal, cortei o latão com o tamanho da minha figura e apliquei-lhe verniz fotossensível (Positiv20). Este verniz, após exposto a raios U.V. fica sensível à acção de hidróxido de sódio (soda cáustica). O verniz vem em spray e é um bocado difícil de aplicar directamente da lata, pelo que apliquei uma porção no meio da minha chapa metálica, e depois dispersei com um pincel plano. Repeti o processo para a outra face. Muito importante é fazer este passo no mínimo de luz possível. Ainda não sei até que ponto é que o verniz é tolerante a outros comprimentos de onda (outras “luzes”) mas não vale a pena arriscar. Depois é embrulhar em papel de alumínio e deixar secar durante a noite. Pode-se por no forno a secar a 70ºC durante meia hora, mas essa maneira não me convenceu. Se há coisa que aprendi é que a natureza demora o seu tempo a fazer as coisas! Para lavar o pincel, nada melhor que acetona!

Com a placa metálica envernizada chega a altura de transferir a imagem para a placa. Como referi, imprimi cada lado em duplicado e sobrepu-los cuidadosamente. Depois, colei uma das faces com fita-cola a uma placa de vidro, e sobrepus a outra face (também ela em duplicado) e colei dois dos lados á placa de vidro (dúvidas?). Depois, é insere-se a nossa placa metálica entre cada uma das faces e temos uma bela sandwich. É de reiterar que a placa n pode ser exposta á luz forte, principalmente solar! Depois da sandwich feita, há que ter a certeza que ambas faces impressas estão em contacto com a placa metálica. Para isso, utilizei uma segunda placa de vidro que fixei firmemente contra a primeira (mais uma camada para a sandwich) utilizando fita-cola e molas.

Agora vem a parte da exposição de forma a activar o verniz fotossensível. O tempo de exposição depende de vários factores: intensidade do sol, espessura da camada de verniz aplicado, opacidade das nossas imagens, pelo que não posso uma valor exacto, comigo funcionou com 7m30s para cada uma das faces, mas isso tem de ser determinado para cada um. O importante é que ambas as faces tenham a mesma exposição.

Depois, vamos remover o verniz que foi exposto aos raios U.V.. Para tal, incuba-se a placa numa solução de hidróxido de sódio. Como não tenho em casa material para aferir a concentração de NaOH usado, vão ter que, novamente, determinar a vossa melhor concentração. O ideal é que o verniz exposto reaja completamente ao fim de 1m30s – 2min. Novamente, não se pode expor a placa a luz forte nem luz solar. Depois de removido o verniz exposto lava-se a placa em água corrente, de maneira a remover resíduos de NaOH.

Finalmente a fase que todos esperam, a oxidação da nossa placa. Depois de lavada, incuba-se a placa numa solução de cloreto de ferro III. Novamente, não determinei as concentrações usadas, e vão ter que o determinar. Penso que uma concentração que corroa 0,1 mm em 30-40 min uma boa escolha. Dessa forma irá demorar 15-20 min oxidar a nossa placa :). A escolha do agente oxidante também pode ser controversa, mas este é o menos tóxico e é o mais seguro. Só faz nódoas.

E pronto, agora espera-se até que a nossa placa fique pronta, Não tive necessidade de agitar nem aquecer a solução. No fim, passa-se a placa por água, de maneira a remover o cloreto de ferro III e posteriormente lava-se com acetona para remover o verniz. E voilá…finito!

Espero que isto ajude, entretanto faço algo com imagens e esquemas..
Dicas, sugestões e dúvidas? Estejam á vontade de se exprimirem aqui. Também devo ir passear até ao Modelscala no sábado á tarde!
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MensagemEscrita por 1/35-PT » 25 Set 2008, 20:59

Olá Bruno

Antes de mais obrigado por partilhares estes teus conhecimentos.
Já vi os PE que fizeste e estão soberbos.
Depois de ler aqui a tua explicação fiquei fascinado com a possibilidade de fazer PE em casa. Tenho uma Impressora Laser a 1200 dpi que me parece apropriada para este tipo de situação, assim como plicula de polyester que cheguei a utilizar como fotolito sei também que existem umas canetas que servem para desenhar os circuitos integrados em electrónica e também podem ser uma mais valia para este processo uma vez que o objectivo é criar opacidade.
Parece-me idêntico ao offset das gráficas em que expões por radiação UV um fotolito (acetato) sobre uma chapa de alumínio com emulsão fotosensível, neste caso não existe vazament mas apenas gravação.
No PE podes fazer ambos depende do tempo de oxidação, estou certo?
Este processo que descreves é eficaz tanto para latão como para alumínio, certo?
Onde consegues arranjar o material necessário: Chapa de latão, Verniz Fotosensível e Clorteto de ferro III.

Um abraço

Paulo Gonçalves
o diabo está nos detalhes

http://www.35pt.blogspot.com

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MensagemEscrita por Francisco Bexiga » 25 Set 2008, 22:00

Excelente tutorial, ficou tudo claro como a água. Fui ler os trabalhos do francÊs de que tínhamos falado, bem como o trabalho que se encontra na webkits e, apesar de serem abordagens diferentes, são fáceis de entender.

Tenho a mesma dúvida em relação à aquisição dos materiais.

Parece-me também que é um trabalho algo exigente em termos de tempo..

Trabalho do franciú:

http://www.armorama.com/modules.php?op= ... 617&page=1

Webkits:

http://www.webkits.com.br/news/template ... &zoneid=28
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MensagemEscrita por softsea » 26 Set 2008, 00:34

Caro Bruno

Muito bom teres posto este Post, espero encontrar-te no Sábado (estarei provavelmente no bar, perdão, no SIG Naval).

Como também ando metido cão experiências de PE, estarei disposto a partilhar os meus pequenos conhecimentos com todos os interessados.

Um abraço
João
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MensagemEscrita por Bruno Albuquerque » 26 Set 2008, 02:03

1/35-PT wrote:Olá Bruno

Antes de mais obrigado por partilhares estes teus conhecimentos.
Já vi os PE que fizeste e estão soberbos.
Depois de ler aqui a tua explicação fiquei fascinado com a possibilidade de fazer PE em casa. Tenho uma Impressora Laser a 1200 dpi que me parece apropriada para este tipo de situação, assim como plicula de polyester que cheguei a utilizar como fotolito sei também que existem umas canetas que servem para desenhar os circuitos integrados em electrónica e também podem ser uma mais valia para este processo uma vez que o objectivo é criar opacidade.
Parece-me idêntico ao offset das gráficas em que expões por radiação UV um fotolito (acetato) sobre uma chapa de alumínio com emulsão fotosensível, neste caso não existe vazament mas apenas gravação.
No PE podes fazer ambos depende do tempo de oxidação, estou certo?
Este processo que descreves é eficaz tanto para latão como para alumínio, certo?
Onde consegues arranjar o material necessário: Chapa de latão, Verniz Fotosensível e Clorteto de ferro III.

Um abraço

Paulo Gonçalves


Viva Pedro, sim uma laser com 1200 é de longe uma mais valia :D
Sim, pelo que descreves, é precisamente a mesma coisa que o offset, mas mais extenso. O processo que descrevi é para o latão. Presumo que para o alumínio seja a mesma coisa, mas ainda não experimentei. Até agora limitei-me a pegar numa chapa de alumínio com umas marcas feitas a caneta de acetato e a mergulhar em Cloreto de Ferro III e essa parte correu bem.
O Cloreto de Ferro III e o Hidróxido de Sódio podem ser adquiridos numa farmácia (mais barato) ou numa loja de materiais de electrónica.
O verniz fotossensível encontra-se em lojas de materiais de electrónica.
O latão comprei-o na [url]http:\\www.franciscosoares.pt[/url]. Provavelmente a minha melhor experiência em compras pela Internet. Fiz a encomenda ás 15 horas da tarde, e na manhã seguinte tinha o latão em casa a pagar ao destinatário. Do melhor :) No entanto, se funcionar bem com o alumínio, vou começar a usar latas de bebidas :D

Francisco, o trabalho do Francês está divinal, no entanto o "ar de velho" é fácil de obter com este processo, o difícil é o contrário, e ainda não percebi como lá chegar!
Sim, demora um bocado, mas é como tudo no modelismo!

João, vemos-nos no Modeslscala :D
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MensagemEscrita por Antonio Sobral » 26 Set 2008, 08:53

Obrigado pela explicação, Bruno!
Faz-me lembrar outros tempos, quando fazia placas de circuito impresso caseiras! Só que na altura não tinha dinheiro para comprar o Positiv 20, e era tudo feito a caneta EDDING 3000.

O Cloreto de Ferro III também é bastante conhecido por Percloreto de Ferro, e costumava comprá-lo a vulso, na casa BARRAL, na Estefânia, em Lisboa.

Só tenho uma dúvida: O Percloreto de Ferro também "come" o Alumínio?
Com cobre e latão funciona bem!
Um Abraço

António Sobral
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MensagemEscrita por Francisco Bexiga » 26 Set 2008, 08:58

No youtube, fazendo uma busca por "photo etching", aparecem vários tutoriais à maneira ;)
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MensagemEscrita por datatrap » 26 Set 2008, 16:41

Muito bom, obrigado

Mas...cuidado:
http://forum.cifraclub.terra.com.br/forum/11/121938/
:)))

Luis DT
Químico (nhequiço, acho que é assim que se escreve...) :evil:
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MensagemEscrita por Bruno Albuquerque » 27 Set 2008, 09:57

:lol: :lol: :lol:
Sou contra alianças :D
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MensagemEscrita por Joaquim Teixeira » 29 Dez 2009, 18:55

Uma curiosidade... depois do processo todo concluido como se separam as peças umas das outras? O cobre parte ou tem que ser cortado?
Eu nunca experimentei mas como pretendo detalhar o cockpit de um P40 de RC à escala 1/8 isto é mesmo o que eu preciso para fazer algumas das peças porque as restantes vão ter que ser feitas com moldes de silicone.
Obrigado
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MensagemEscrita por Luís Dias » 29 Dez 2009, 19:16

O cobre/latão não "protegido" é dissolvido pela solução ácida durante o processo.
Ficam umas pequenas uniões que são cortadas e depois lixadas.

Utiliza-se cola de cianoacrilato ("Super Cola 3") ou cola epoxídica rápida para a colagem.


Um abraço,
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MensagemEscrita por Joaquim Teixeira » 30 Dez 2009, 19:15

Optimo é exactamente aquilo que eu preciso. Obrigado
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MensagemEscrita por Carlos Carreira » 30 Dez 2009, 23:31

Cuidado com o alumínio! Todos os tutoriais que vi relativos ao assunto alertavam para uma reacção potencialmente perigosa do percloreto de ferro com o alumínio.
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MensagemEscrita por Carlos Carreira » 30 Dez 2009, 23:35

Joaquim Teixeira wrote:Uma curiosidade... depois do processo todo concluido como se separam as peças umas das outras? O cobre parte ou tem que ser cortado?


Podem fazer-se peças sem pontes a uni-las. Basta colar fita castanha de embalagem de um dos lados da placa de cobre. Claro que assim o metal é comido só dum dos lados e demora o dobro do tempo, mas tenho em casa placas feitas assim pela Fotocut.
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MensagemEscrita por Fábio Dytz » 31 Dez 2009, 00:26

Senhores, a gravação de alumínio é feita com soda cáustica. Não vejo o porque de fazer peças gravadas em alumínio uma vez que o latão é um material bem melhor para se trabalhar. O lado oposto da chapa a ser gravada pode ser protegido com o uso de tinta automotiva. Para isso basta dar uma boa lixada na chapa com lixa para metais nº 220 e fazer a aplicação a pincel ou aerógrafo.
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